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CONSIDERAÇÕES SOBRE A
CAUSALIDADE ÚLTIMA
O ímpeto de se chegar à Verdade Absoluta,
a fonte de toda a existência, tem motivado filósofos,
teólogos e outros intelectuais de vários sistemas
religiosos desde tempos imemoriais, e isso ainda
continua hoje em dia. Contudo, analisando-se
desapaixonadamente a sempre crescente pluralidade de
ditas filosofias, religiões, processos, estilos de vida
etc., nós verificamos que, em quase todos os casos, o
objetivo último é algo impessoal ou amorfo. Mas esta
idéia de uma Verdade Absoluta impessoal ou amorfa
apresenta sérias deficiências lógicas.
De acordo com as regras ordinárias da lógica, um
determinado efeito deve, direta ou indiretamente,
incorporar os atributos ou natureza de sua própria causa.
Portanto, aquilo que não tem personalidade ou atividade
não pode, de forma alguma, ser a fonte de todas as
personalidades e atividades.
Nossa irresistível propensão a filosofar acerca
da verdade última freqüentemente se expressa através de
tentativas de descobrir de que, ou de onde, todas as
coisas emanam. Este mundo material, que é uma
aparentemente ilimitada rede de causas e efeitos que
interagem, certamente não é a Verdade Absoluta, visto
que a observação científica dos elementos materiais
indica que a matéria-prima deste mundo, a energia
material, é interminavelmente transformada em diferentes
estados e formas. Portanto, um exemplo específico de
realidade material não pode ser a fonte última de todas
as coisas.
Nós podemos especular que a matéria, de uma forma
ou de outra, sempre existiu. Esta teoria, contudo, já
não é atrativa para os cosmologistas modernos, como os
do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. E mesmo se
nós postulamos que a matéria sempre existiu, nós ainda
devemos explicar a fonte da consciência, se nós queremos
satisfazer nosso ímpeto filosófico com respeito a
descobrir a Verdade Absoluta. Embora empiristas
fanáticos modernos afirmem que nada é real exceto a
matéria, qualquer pessoa experimenta, facilmente, que a
consciência não é do mesmo tipo de substância que uma
pedra, um lápis ou água. A própria consciência,
contrastando com os objetos da consciência, não é uma
entidade física, mas antes, um processo de percepção e
compreensão. Enquanto existe uma ampla evidência de uma
sistemática relação interdependente entre matéria e
consciência, não existe qualquer evidência empírica
rígida de que a matéria é a causa da consciência. Assim,
a teoria de que o mundo material sempre existiu e é,
portanto, a Verdade Última, não explica nem
cientificamente nem intuitivamente a origem da
consciência, que é o mais fundamentalmente real aspecto
de nossa existência.
Além disso, como foi demonstrado pelo Dr. Richard
Thompson, da Universidade do Estado de Nova York, em
Binghamton, e confirmado por vários laureados pelo
prêmio Nobel, que elogiaram seu trabalho, as leis da
natureza, governando as transformações da matéria,
simplesmente não contém informações suficientemente
complexas para responder pela inconcebível complexidade
de eventos que acontecem dentro de nossos próprios
corpos e de outras formas de vida. Em outras palavras,
as leis da natureza material não somente falham em
responder pela existência da consciência, mas não podem
explicar, inclusive, a interação dos elementos materiais
em níveis orgânicos complexos. Mesmo Sócrates, o
primeiro grande filósofo ocidental, era avesso à
tentativa de estabelecer a causalidade última em termos
de princípios mecanicistas.
O calor e a luminosidade dos raios do Sol
demonstram, para a satisfação de qualquer homem racional,
que o Sol, a fonte de todos os raios, não é, certamente,
um globo escuro e frio, mas antes, um reservatório de
quase ilimitado calor e luz. De modo semelhante, os
inumeráveis exemplos de personalidade e consciência
pessoal dentro da criação são mais do que suficientes
para demonstrar a existência, em algum lugar, de um
ilimitado reservatório de consciência e comportamento
pessoal. No seu diálogo Philibus, o filósofo grego
Platão argumenta que, tal como os elementos materiais em
nosso corpo são provenientes de um vasto reservatório de
elementos materiais existentes dentro do universo, nossa
inteligência racional é, também, derivada de uma grande
inteligência cósmica existente dentro do universo, e
esta inteligência suprema é Deus, o Criador.
Infelizmente, em Kali-Yuga, muitos pensadores
importantes não podem entender isto e, ao invés de
aceitar isto, negam que a Verdade Absoluta, a origem
consciência pessoal, tenha consciência e personalidade.
Isso é tão aceitável como dizer que o sol é frio e
escuro.
Na Kali-Yuga, muitas pessoas apresentam
argumentos baratos e estereotipados, tais como “se Deus
tivesse um corpo ou personalidade, Ele seria limitado”.
Nessa inadequada tentativa de lógica, um termo
qualificador é apresentado falsamente num sentido
universal. O que realmente deveria ser dito é: “se Deus
tivesse um corpo material tal como aqueles que nós temos
experimentado, Ele seria limitado”. Mas nós omitimos o
adjetivo qualificativo material e fazemos uma afirmação
pseudo-universal, como se entendêssemos o seu alcance
completo, dentro da realidade total de corpos e
personalidades.
O Bhagavad-gita, o Srimad-Bhagavatam e outros
textos védicos ensinam que a forma e personalidade
transcendentais da Verdade Absoluta são ilimitadas.
É evidente que, para ser verdadeiramente infinito,
Deus deve ser não só quantitativa, mas também
qualitativamente, infinito. Infelizmente, em nossa era
mecanicista e industrial, nós temos a tendência de
definir infinidade somente em seu sentido quantitativo,
e assim falhamos em considerar que uma infinidade de
qualidades pessoais é um aspecto exigido para se definir
a infinidade. Em outras palavras, Deus deve ter infinita
beleza, infinita riqueza, infinita inteligência,
infinito humor, infinita bondade, infinita ira etc.
O infinito é um absoluto, mas se alguma coisa que
nós observamos neste mundo não está contida, de uma
forma ou de outra, dentro de nossa concepção de Absoluto,
então esta concepção é algo limitada e não é, de modo
algum, o Absoluto.
Somente em Kali-Yuga existem filósofos
suficientemente tolos para orgulhosamente definir o mais
absoluto dos termos – Deus – de forma materialista e em
seguida, declararem-se pensadores iluminados.
Não importa quão grande nosso cérebro seja, nós devemos
ter o bom senso de colocá-lo aos pés da Suprema
Personalidade de Deus.
Texto:
Hridayananda Dasa Goswami
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