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Arigos Filosóficos - Isolamento em Consciência de Krishna

Isolamento em Consciência de Krishna
artigo originalmente apresentado na Graduate Theological Union, Berkeley, Califórnia

Em seu artigo "Psicologia da Conversão", o professor Lewis Rambo (*) apresenta um modelo do estágio heurístico no processo de conversão religiosa. Ele mostra um bom quadro das atuais considerações científico-sociais sobre a experiência de conversão, escritas por eruditos e estudiosos interessados no assunto. Segundo este modelo, o primeiro estágio é "contestar". E, nesse caso, discute-se muito o "isolamento", aspecto polêmico do treinamento religioso. Exploraremos rapidamente esta questão para ilustrar os diversos modelos nos quais a ciência social e a religião podem considerar o mesmo fenômeno a partir de diferentes perspectivas. Uma análise similar pode ser feita para outras categorias deste modelo, mas limitaremos nossa discussão ao isolamento.

Comunidades religiosas tipicamente monoteístas ensinam que todos nós podemos experimentar nossa verdadeira natureza, identidade e função, através do serviço amoroso a Deus. A sociedade moderna, entretanto, está mais para o "eu-centrado" do que para "Deus-centrado", para a autogratificação do que para o auto-sacrifício. Então muitos instrutores religiosos tentam proteger ou afastar seus estudantes do que eles percebem ser influência corrompível no envolvimento sócio-sensorial. O que tem provocado críticas, segundo o professor Rambo.

"Muita gente acredita que alguns grupos religiosos deliberadamente se isolam do mundo em geral, e os novos convertidos, por sua vez, tornam-se submissos aos desejos desses grupos, que se consideram em especial relacionamento com o divino".
Na tentativa de tornar compreensível o tema "isolamento", no que se refere ao Movimento da Consciência de Krishna (ISKCON), levantamos três argumentações:

1 - o isolamento não é exclusividade dos movimentos religiosos, como a ISKCON, mas é realmente um fenômeno social;

2 - a sociedade sempre tenta isolar seus membros da ISKCON;

3 - a linguagem e os assuntos da ciência social sempre refletem uma inclinação anti-religiosa que sublinha muitos dos ataques ao Movimento da Consciência de Krishna.
Isolar alguém, num contexto social, significa deixar uma pessoa à parte ou solitária, afastá-la de certos convívios. Existem alguns exemplos comuns de isolamento, como os americanos que trabalham em países subdesenvolvidos, vivendo em restritas comunidades americanas, com clubes, lojas e facilidades recreativas. As escolas americanas no estrangeiro têm a finalidade de evitar excessivo contato de suas crianças com a cultura local, ou "população nativa".

Hoje em dia, há uma freqüente busca por segurança e isolamento social, atrás de reforçados portões de condomínios privados. Os eruditos tradicionalmente isolam seus conhecimentos com os altos muros da linguagem técnica e da metodologia sofisticada, tornando-se virtualmente inacessíveis, se não ininteligíveis, para as pessoas em geral. Mães e pais esforçam-se para isolar seus filhos das influências corrompíveis do mundo. O nacionalismo cria uma identidade nacional distinta, isolando os cidadãos de identificação mais ampla com pessoas de outras nações. Certos filósofos e teólogos isolam a espécie humana do resto da natureza, desencorajando, assim, maior empatia com outras formas de vida e espécies.

Como um meio de organizar sociedade e cultura, o isolamento é virtualmente um fenômeno universal. Deveras, os mecanismos de isolamento são desenvolvidos rotineiramente e de maneira quase inconsciente. Eruditos citam com freqüência casos de grupos numericamente menores - "micro contexto" - que neutralizam a influência de grupos numericamente maiores - "macro contexto" - isolando seus membros do mundo em geral.

É interessante notar, contudo, os muitos casos de grupos numericamente maiores que procuram impor seus valores através do isolamento de pessoas de uma influência micro contextual incomum. Poderosas forças sociais, tais como a mídia, polícias, legisladores e desprogramadores sempre tentam desencorajar quem queira fazer parte de minorias religiosas, como o Movimento da Consciência de Krishna, através de mídia tendenciosa, hostilizações legais e restrições da liberdade de expressão que frustram os fóruns abertos.

No curso de nosso trabalho missionário, temos observado pessoalmente muitos casos do gênero, dos quais podemos mencionar alguns. Na Rússia, pessoas foram presas, torturadas e eventualmente mortas pelo crime de praticar Consciência de Krishna. A comunidade internacional as reconheceu abertamente como prisioneiras de consciência.

Na Grécia, jovens membros do Movimento da Consciência de Krishna têm sido regularmente objeto de esmagadora repressão por parte da família, imprensa e governo, o que torna para eles quase impossível a prática da Consciência de Krishna.
Na Argentina, a ditadura militar neo-facista, que exercia o poder em 1977, perseguiu e baniu o Movimento Hare Krishna, juntamente com outras denominações minoritárias.
Na Ilha de Bali, castas de brahmanas hinduístas temiam a perda das reverências e dos prestígios sacerdotais. Portanto conspiraram com o governo muçulmano para banir o Movimentoto Hare Krishna da Indonésia.

Nos Estados Unidos, desprogramadores contratados raptavam membros do Movimento da Consciência de Krishna. Em cativeiro, sujeitavam-nos a abusos físicos e mentais, até que negassem seus pontos de vistas religiosos ou escapassem.

Mesmo que a ISKCON tenha o poder de fazer guerra adversa, os recursos legais e de mídia são sempre tão caros, que uma vitória pirrônica (* relativo à filosofia de Pirron) acaba sendo arquivada. Deveras, nos Estados Unidos, quem se opõe à Consciência de Krishna tem abertamente articulado uma política de hostilização à ISKCON, através de caras batalhas jurídicas.

Os exemplos acima ilustram como um grupo social maior pode procurar isolar seus membros da influência do Movimento da Consciência de Krishna. Mas este fato é normalmente negligenciado ou talvez despercebido pelos tradicionais estudiosos científico-sociais de movimentos religiosos, especialmente quando os movimentos religiosos são vistos como novos, estranhos e intensos.

Professor Rambo afirma que "eruditos necessitam reconhecer os mais súbitos valores inerentes em seus modelos teóricos e recursos analíticos”. Por exemplo, se um psicólogo está tentando avaliar as conseqüências na saúde mental dos convertidos, eles reconhecem os valores culturais que constituem seus modelos de saúde mental? Eles reconhecem como seus modelos podem ser diferentemente constituídos em outras culturas?

Vamos dar um exemplo concreto de "valores culturais que moldam" o trabalho de cientistas sociais. Aqueles envolvidos em estudos acadêmicos sobre religião sempre se referem a doutrinas religiosas como "sistema de crenças", "estórias" e "mitos". Eles falam sobre pessoas engajadas na "construção mundial" no sentido de "criar significado e propósito na vida". Claramente um ponto de vista espiritual normal poderia ser esse significado e propósito de existir na vida. Nós os descobrimos. Nós não os criamos, assim como nós não criamos a realidade fundamental do mundo físico. E embora os acadêmicos recentemente tenham reformulado o conceito de mito, preserva-se um inquietante senso de lenda fabricada, se bem que uma instrutiva e edificante lenda. De fato nós temos que manter bem em mente que embora certos termos, tais como "sistema de crença", "estórias", "mitos", "construção mundial" etc. são usados de maneiras especiais na ciência social, essas palavras são claramente temperadas para alguma categoria (social) por seu emprego ordinário, não técnico. Então a frase "isolar...do vasto mundo" pode ser extremamente enganadora, desde que nos faça sentir que as pessoas isoladas são confinadas a um "mundo mais estreito" e por este motivo sejam existencialmente debilitadas. Chamar a sociedade materialista de "vasto mundo" é, em um sentido, tão absurdo quanto chamar o interior da caverna de Platão de "vasto mundo" baseado na intensidade numérica dos habitantes da caverna, em contraste para aqueles que escaparam da caverna escura pela luz do absoluto. Na verdade, uma sociedade materialista, especialmente as nossas de hoje, pareceria ela mesma ser perigosamente isolada de uma maior e mais significativa realidade espiritual.

Cientistas sociais sempre respondem que eles não podem endossar ou validar uma doutrina espiritual particular, e portanto eles têm recurso para uma linguagem neutra ou objetiva. E ainda, embora nós possamos concordar que a discussão imparcial de religião requeira uma linguagem neutra, objetiva, a atual terminologia científico-social não pode provê-la totalmente. Significativas discussões de religião, mesmo do ponto de vista científico-social, poderiam ser grandemente realçados pela linguagem que seja mais verdadeiramente neutra e objetiva.

Os limites da ciência social que se aproximam da realidade espiritual são claramente afirmados pelo Professor Rambo em suas discussões de um ramos da ciência social, Psicologia: "Psicologia científica é uma disciplina humana que pode apenas tentar usar teorias para entender um fenômeno que está além do alcance da compreensão humana". Ciências mundanas buscam conhecimento que concede poder humano independente sobre a natureza. O ponto de vista da Consciência de Krishna, contudo, é que nossa perfeição como seres viventes situa-se em nossa submissão ao supremo controlador, e que o mais alto conhecimento é eminente da rendição espiritual. Não é de surpreender, portanto, que a psicanálise e o comportamentalismo tendam estar em divergência com a Consciência de Krishna. Não há tanto um problema de princípio experimental divergente, ou princípio versus fé, como há um simples conflito no panorama mundial, em pontos de partida axiomáticos.

O Movimento da Consciência de Krishna desafia e fortemente critica os valores materialistas. Isto pode ferir e irar pessoas que anteriormente mantinham importantes ou autoritárias posições nas vidas dos convertidos, e quem parece estar diretamente e indiretamente exposto e desacreditado pela forte filosofia espiritual do Movimento da Consciência de Krishna.

Devotos da Consciência de Krishna esforçam-se por pureza numa era reconhecidamente materialista. Naturalmente algumas pessoas interpretam isso como uma forma de isolamento doentio (mórbido). Subjacente a este ponto de vista, nós poderíamos argumentar, está a convicção materialista de que há pouco de substância na vida espiritual. Real satisfação advém de sensações físicas. Relacionamentos reais ocorrem neste mundo entre amigos, em família e entre parceiros sexuais. Deus é remoto, vago, e experimental, visto que as coisas neste mundo são vivas (resplandescentes), imediatas e reais. Esta filosofia sempre destaca o receio de que o disciplinado, devotado estilo de vida da Consciência de Krishna seja doentio e errado.

É interessante notar que em sociedades menos materialistas, devotos da Consciência de Krishna tendem a ter uma relação mais descontraída e cativante com o "vasto mundo". Por exemplo, em muitos países asiáticos, devotos movimentam-se livremente na sociedade circundante, sem medo do escárnio constante, raptos ou abusos físicos. As mesmas vestes que provocam zombaria num lugar, são altamente reverenciadas em outras terras como a roupa de um santo sacerdote.

Em muitas maneiras, a própria tendência da sociedade parece ter-se envolvido num tipo de culto bizarro, um culto no qual pessoas vertem bajulação e idolatria em vício de drogas, adultério, jogos de azar e matadores de animais que possibilitam desfrute de um talento materialmente gratificante. Semelhante idolatria é excessiva naqueles que, de uma maneira ou de outra, acumulam fortunas e poder efêmeros.

Nós poderíamos recordar que o mundo não é mau para uma pessoa consciente de Krishna. A ontologia do Bhagavad-gita claramente identifica o cosmos físico como uma divina emanação de Deus. Sem dúvida, nosso mau uso deste mundo que é errado. Quando a criação de Deus está ocupada em Seu serviço amoroso até a matéria recupera, ou resgata, sua qualidade espiritual. Deste modo, um devoto de Krishna busca estabelecer um relacionamento positivo com todos que existem, vendo todas as coisas em relação a Krishna. Uma clara apreensão desta ontologia antiga é crucial para uma justa compreensão da questão do "isolamento" como ela ocorre no Movimento da Consciência de Krishna.

O isolamento torna necessário a renúncia daquilo do qual alguém busca isolar-se. A procura por uma clara definição de renúncia é um tema central no Bhagavad-gita.

Arjuna, o discípulo de Deus, quer livrar-se de seus deveres mundanos (temporais), ao passo que Krishna repetidamente lembra-o que a real renúncia significa o cumprimento do dever de alguém, mas sem o desejo pelo fruto da ação. É nossa cobiça e desejo pelo fruto de nosso trabalho, e não o trabalho em si, a que nós precisamos renunciar. O Supremo Senhor é o desfrutador do fruto, e nós devemos trabalhar para Sua satisfação. Trabalho para a satisfação é chamado yajna, ou "sacrifício". Por conseguinte, as coisas deste mundo podem ser comprometidas no serviço a Deus e, no processo, espiritualizadas. Nossa casa pode ser um lugar de ordinária gratificação, ou pode ser consagrada como um templo de Deus. Similarmente, a comida que nós comemos pode ser oferecida a Deus, nós santificamos nossa existência. Sem oferecer nossa comida em sacrifício, o Gita explica, nós estamos comendo somente pecado.

O Movimento da Consciência de Krishna ensina, na autoridade do Bhagavad-gita, que todas nossas atividades poderiam ser executadas como sacrifício ao Supremo Senhor. Trabalho em sacrifício a Krishna está livre de reações, ou enredamento nas leis materiais de karma que obriga-nos a repetidamente aceitar as misérias do nascimento, velhice e morte.

O Movimento da Consciência de Krishna não requer isolamento do mundo, por si, mas está certo que todas nossas atividades são realizadas como serviço amoroso para o Supremo Senhor. Desde que o Senhor é o criador e proprietário de todas as coisas, servi-lo é uma verdadeira lógica ou responsabilidade racional para este mundo.
Um devoto de Krishna satisfaz seus sentidos com o serviço ao Senhor. Tal como nós alimentamos uma árvore molhando suas raízes, nós podemos similarmente satisfazer a alma individual através da satisfação ao Supremo Senhor, que é a fonte da existência da alma.

Quando uma sociedade inteira é absorvida na gratificação dos sentidos, a sociedade torna-se uma fonte de poluição para a alma pura. Uma sociedade dedicada ao serviço amoroso por Deus poderia ser um sublime ambiente para os devotos do Senhor. O mundo não é necessariamente mau, nós apenas o colocamos nessa maneira. E ainda, como o devoto do Senhor avança em sua compreensão espiritual, ele aprende a voltar o mundo, mesmo assim, em direção ao serviço ao Senhor. Houve muitos santos Vaishnavas que ativamente se ocuparam neste mundo sem comprometer suas purezas espirituais. Portanto, no estágio avançado da consciência de Krishna, os mesmos objetivos materiais que uma vez ameaçaram a nascente compreensão espiritual, agora aparecem como uma promissora intimação e oportunidade para transformar um mundo mundano num reino divino.


Texto:
Hridayananda Dasa Goswami
 
 

 
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