Neste extático Goura Purnima, Chandramukha Swami
prestigiou-nos com um pouco de seu enorme saber
transcendental, ministrando a palestra do
Bhagavad Gita. Todos estavam ansiosos por vê-lo,
a sala do templo estava lotada, e devotos que
não conseguiram entrar ficavam apinhados nas
janelas da sala esperando absorver o néctar do
conhecimento transcendental que emanava lá de
dentro.
Maharaj Chandramukha cantou o Jaya Radha Madhava,
elevando a atmosfera espiritual na Sala do
Templo, sendo acompanhado entusiasticamente por
todos os presentes. O verso escolhido fora o 4.9
do Bhagavad Gita como Ele É, que em sua tradução
para o Português ficou:
“janma
karma ca me divyan
evam yo evtti tattvatah
tyaktva deham puner
janma nati eti so' rjuna”
janma – nascimento; karma – trabalho; ca –
também; me – de Mim; divyam – transcendental;
evam – assim; yah – qualquer um que; vetti –
conhece; tattvatah – em realidade; tyaktva –
deixando de lado; deham – este corpo; punah –
outra vez; janma – nascimento; na – nunca; eti –
alcança; mam – a Mim; eti -alcança; sah – ele;
arjuna – ó Arjuna
Tradução:
Aquele
que conhece a natureza transcendental do Meu
aparecimento e atividades, ao deixar o corpo não volta a
nascer neste mundo material, mas alcança Minha morada
eterna, ó Arjuna.
SIGNIFICADO:
A decida do senhor de Sua morada transcendental já foi
explicada no sexto verso. Aquele que pode compreender de
verdade o aparecimento da Personalidade de Deus já está
liberado do cativeiro material, e por isso retorna ao
reino de Deus logo após deixar o atual corpo material. O
fato é que para conseguir libertar-se do cativeiro
material a entidade viva precisa vencer sérias
dificuldades. Os impersonalistas e os yogis alcançam a
liberação só após muito esforço e após muitíssimos
nascimentos. Mesmo então, a liberação que eles conseguem
– fundir-se no bramajyoti impessoal do Senhor – é apenas
parcial, e há o risco de eles retornarem a este mundo
material. Mas o devoto, pela simples compreensão da
natureza transcendental do corpo e das atividades do
Senhor, alcança a morada do Senhor após o término deste
corpo e não se arrisca a retornar a este mundo material.
No Brahma-samhita (5.33), declara-se que o Senhor tem
muitíssimas formas e encarnações: advaitam acyutam
anadim ananta-rupam. Embora existam muitas formas
transcendentais do Senhor, elas são a mesmíssima Suprema
Personalidade de Deus. Deve-se entender este fato com
convicção, embora Ele seja incompreensível aos eruditos
mundanos e aos filósofos empíricos. Como se afirma nos
Vedas (Purusa-bidhini Upanishad):
eko devo nitya-lilanurakto
bhakta-vyapi hrdy antar-atma
“A única Suprema Personalidade de Deus Se ocupa
eternamente nos relacionamentos com Seus devotos
imaculados em Suas muitíssimas formas
transcendentais.” Neste verso do Gita, o Senhor
pessoalmente confirma esta versão védica. Aquele
que aceita esta verdade baseando-se na
autoridade dos Vedas e da Suprema Personalidade
de Deus e que não perde tempo com especulações
filosóficas alcança a mais elevada e perfeita
fase de liberação. Pelo simples fato de aceitar
esta verdade com fé,pode-se, sem dúvida,
alcançar a liberação. A versão védica tav tvam
asi realmente aplica-se a este caso. Qualquer um
que compreenda que o Senhor Krishna é o Supremo,
ou que diga ao Senhor “Você é o próprio Bhraman
Supremo, a Personalidade de Deus”, é com certeza
liberado instantaneamente, e conseqüentemente
ganha acesso à associação transcendental com o
Senhor. Em outras palavras, este devoto fiel do
Senhor atinge a perfeição, e isto é confirmado
pela seguinte declaração védica:
tam eva viditvati
mrtyum eti
nanyah pantha vidyate 'yantya
“Pode alcançar a fase perfeita de liberação, na
qual se escapa do nascimento e da morte, quem
simplesmente conhece o Senhor, a Suprema
Personalidade de Deus, e não há outra maneira de
alcançar esta perfeição.” (Svetasvatara Upanisad
3.8) O fato de que não há alternativa significa
que qualquer pessoa que não compreende o Senhor
Krishna como a Suprema Personalidade de Deus na
certa está no modo da ignorância e, por
conseguinte, não alcançará a salvação apenas,
por assim dizer, lambendo a superfície externa
da garrafa de mel, ou interpretando o Bhagavad
Gita conforme a erudição mundana. Talvez esses
filósofos empíricos assumam papéis muito
importantes no mundo material, mas isso não
implica necessariamente que eles estão
qualificados para a liberação. Tais eruditos
mundanos arrogantes têm que esperar pela
misericórdia imotivada do devoto do Senhor. Deve-se,
portanto, cultivar a consciência de Krishna com
fé e conhecimento, e com isto alcançar a
perfeição.”
Segundo Maharaj Chandramukha, esse verso muito
elucidativo e encorajador é munido de
importantíssimas entrelinhas, ao dizer que
aquele que se torna um devoto puro alcança a
perfeição máxima da vida, não tendo mais que
nascer nesse mundo material.

O palestrante explicou que as Escrituras Védicas
atestam claramente que esse corpo material é uma
condição artificial e limitada de existência,
nos oferecendo ferramentas de atuação que são
limitadas e imprecisas. Neste corpo perdemos
nossa consciência, e estando dentro deste corpo
nos tornamos reféns da luxúria, da inveja, da
ira, da insanidade, da confusão mental, pois
somos nós mesmos que criamos tais condições
neste mundo, herdando tais condições e
propensões, criadas pela mente, de vidas
passadas.
Explicou Maharaj Chandramukha que a mente criou
toda essa condição, se tornando nossa inimiga,e
comparou nossa mente ao cavalo da piada em que
figura um mocinho, a cavalo, cercado por índios
armados; o mocinho reclama em voz alta: “estamos
perdidos”, e em resposta o cavalo lhe diz que
não estão perdidos, sugerindo que seja atirada
uma pedra na cara do índio de cocar mais vistoso
e imponente – acatado pelo mocinho, e executada
a sugestão, pondo os índios ainda mais irritados(!),
pergunta o mocinho ao cavalo: “... e agora?”, ao
que o cavalo lhe responde: “agora sim, estamos
perdidos!”
O palestrante explicou que o verso estudado fala
de uma ciência sobre o Criador e Aniquilador do
mundo, que está situado em sua morada
transcendental. Porém, Maharaj ressalvou que
entender essa ciência é entender que Krishna vem
a esse mundo através de sua própria Potência
Espiritual (não aceitando, portanto, um corpo
material), pois o mundo material é comparável às
nuvens que passam pelo Sol, mas jamais o
encobrem de verdade. Da mesma forma, o mundo
material não encobre Krishna jamais.
Explicou que Krishna encarna tantas vezes quanto
as ondas do mar, que são infinitas. Disse que
Deus criou este mundo material para termos a
sensação ilusória de que podemos controlar as
coisas e viver sem Ele, mas Ele não nos abandona,
tendo nos deixado um “manual de instruções”
nesses mundos materiais que, de tão amplos,
explicam quais são nossos problemas reais, e
como podemos sair deste mundo material.
Maharaj explicou que as pessoas desta Era têm
muita dificuldade para entender o Gita, razão
pela qual veio o Senhor Caitanya, ressaltando, o
palestrante, que os ensinamentos do Senhor
Caitanya não são diferentes dos ensinamentos de
Krishna no Bhagavad Gita, que, no fim, envolvem
nossa entrega a Krishna.

Alertou, o palestrante, que temos medo de nos
entregarmos a muitas coisas, e da mesma forma
temos medo de nos entregarmos a Krishna. Porém,
em contrapartida, Krishna, no próprio Bhagavad
Gita, diz: “não tema”.
Como as pessoas têm muita dificuldade para
entender esse princípio, então Krishna voltou ao
mundo material como devoto para nos mostrar, na
prática, como devemos nos entregar a Ele com
Bhakta Rupam. Explicou que Krishna assumiu essa
forma porque “ser mel” não é tão gostoso quanto
“experimentar mel”, então Ele volta como devoto
para experimental o mel do serviço devocional.
Maharaj Chandramuka explicou que o Senhor
Caitanya é chamado Gauranga, e Gauranga é o
masculino de Gaurangi – um dos nomes de
Radharani. Assim, Krishna veio como o Senhor
Caitanya na forma de Radharani, quem melhor
entende de Krishna! Desse modo, o Senhor
Caitanya vem de fato como professor (primariamente),
e vem, também, internamente, para experimentar o
que sente Radharani.

O palestrante ressaltou, porém, que não se pode
separar a Potência do Potente, assim como não se
pode separar o almíscar de seu odor, ou o
sândalo de seu odor. Explicou que certa feita,
Sri Govinda Das dissera que quem não lera o
Caitanya Caritamrita não é uma pessoa “tão
afortunada”. Disse Chandramukha Swami que o
Caitanya Caritamrita nos mostra fatos
fantásticos, de forma que não podemos ficar,
apenas, na beira do mar da consciência de Krisna,
mas devemos nos aprofundar, adentrar nesse mar,
mesmo.
Ensinou, Maharaj, que o Senhor Caitanya veio
para nos mostrar como devemos entrar nesse
oceano de conhecimento, e que a vida do Senhor
Caitanya foi muito bem compilada por seus
biógrafos, tando seu período de Adi Lila, quando
o de Madhya Lila, ou ainda o de Antya Lila.
Maharaj explicou que foi durante o período de
Antya Lila que o Senhor Caitanya compilou o
Siksastaka, um resumo de todos os seus
ensinamentos. O palestrante ressaltou que
Prabhupada sempre aconselhara os devotos a
meditar nesses versos.
Disse, Chandramukha Swami, que as últimas
palavras de George Harrison, ditas imediatamente
antes de abandonar o corpo, foram: “tudo nessa
vida pode esperar, menos cultivar sua relação
com Krishna”.
Explicou, Maharaj, que a alma pode permanecer na
terra por um tempo ilimitado, perdida por um
tempo ilimitado, de forma que um verdadeiro
amigo é aquele que vai te ajudar a sair desse
invólucro material e se reconectar com Krishna,
o que é normalmente muito difícil. Disse que
quem tem tal amigo é uma pessoa muito afortunada.
Continuou explicando que por Guru, Krishna
Prasada, Puja e misericórdia imotivada é que é
lançada a semente da trepadeira do amor a Deus.
Se nosso coração for fértil, essa semente
germinará na forma de Srhada (princípio pela
busca espiritual), sendo que de Srhada nasce
Sadhusanga (querer associar-se com os devotos),
do qual surge Bhajana (que é o desejo de se
executar serviços devocionais), e daí surge
Anartha Nivriti, que é a cessação dos anarthas (vícios
e maus hábitos). Disse, o palestrante, que esse
serviço devocional dá a energia para se desfazer
os anarthas, surgindo, daí, Nista, que é o
desvinculamento do mundo material, quando
ficamos estáveis. Disse Maharaj que uma pessoa
que pratica Bhajan fica livre da paixão e da
ignorância, tornando-se satisfeita.

Explicou que, neste mundo material, a única
forma de se ter felicidade é se situar no modo
da bondade, e daí, uma vez fixos, entramos num
estado de ruchi (criando gosto pelas coisas de
Krishna), o que viabiliza o surgimento de bhava
(fruto do amor a Deus), e daí entramos em Bhakti.
Continuou, Chandramukha Swami, ensinando que
Krishna diz que aquele que compreende Sua
opulência se engaja em serviço devocional puro.
Assim, o conhecimento védico não é apenas para
informação e sim para transformação, de forma
que compreensão verdadeira transforma o devoto.
Recordou que há 40 anos as milhões de almas do
ocidente não tinham a oportunidade de ouvir
sobre Krishna, e que pelo esforço de Srila
Prabhupada tudo isso é possível hoje. Explicou
que muitos podem ter conhecimento acerca da
consciência de Krishna, mas quem quer se
aprofundar tem a oportunidade de avançar muito (retornando
ao mundo espiritual).
Maharaj disse que, quando é dito que o devoto
puro não volta a nascer nesse mundo material,
isso quer dizer que ele não mais sofrerá com
inveja, doença, luxúria e os demais perigos
desse mundo material. Nesse ponto o palestrante
ressaltou a importância da canção Jivjago,
apontando a importância da alma acordar de sua
condição material, dos braços da bruxa Maya.
Alertou a platéia que temos de superar essas
identificações materiais que temos, de forma que
devemos praticar serviço devocional de uma forma
mais profunda. Argumentou que temos muitos
templos, facilidades para escapar desse mundo (não
um “escapar” de uma forma negativista, mas sim
num espírito de ir para um lugar onde não
existem todas as misérias material).
Explicou que é muito importante para o cantar do
Maha Mantra se desfazer das 10 ofensas, mas
cantando os nomes de Caitanya não há ofensas.
Cantamos o Maha Mantra porque o Senhor Caitanya
veio para pregar as glórias do cantar do Maha
Mantra.
Assim, cantamos Jaya Sri Krishna Caitanya Prabhu
Nityananda Sri Advaita Gadadhara Sri Vasadi
Gaura Bhakta Vrinda como uma forma de alcançar o
verdadeiro significado do cantar do Maha
Mantra.
Terminando assim sua explanação, Chandra Mukha
Swami abriu para perguntas e respostas.
Texto: Bhakta Daniel
Fotos: Madhumati Radhika Devi Dasi
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