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Bhagavad-Gita 10.29
anantas casmi naganam
varuno yadasam aham
pitrnam aryama casmi
yamah samyamatam aham
Tradução
“Das
Nagas de muitos capelos, sou Ananta, e entre os seres
aquáticos, sou o semideus Varuna. Dos ancestrais que
partiram sou Aryama e entre aqueles que impõem a lei sou
Yama, o Senhor da Morte.”
Significado
Entre as serpentes Najas
que tem muitos capelos, Ananta é a maior, assim como o
semideus Varuna o é os seres aquáticos. Ambos
representam Krishna. Há também um planeta dos Pitas,
antepassados, presididos por Aryama, que representa
Krishna. Há muitas entidades vivas que punem os
malfeitores, e entre elas Yama é o líder. Yama está
situado num plante perto deste planeta terrestre. Após a
morte, aqueles que são muito pecaminosos são levados
para lá e Yama providencia para eles várias espécies
diferentes de punições.
O
capítulo “A opulência do Absoluto” apresento o quanto
Krishna, a Suprema personalidade de Deus, é variado,
diverso, ou, como Srila Prabhupada dizia, “o artista
supremo”. A primeira inversão que notamos entre a
cultura védica milenar e a cultura ocidental moderna é a
primazia que a segunda dá à igualdade em detrimento da
diversidade originada em e por Krishna. Sri Krishna
criou a diversidade que leva à harmonia enquanto a
igualdade leva ao caos. O diverso permeia toda a
manifestação material em todos os aspectos, como veremos
nos seguintes exemplos.
Srila Bhaktivinoda Thakura apresentou uma definição de
cultura em quatro camadas. Primeiro, o aspecto físico da
cultura, ou seja, as técnicas, a economia, a estética e
os hábitos de vestimenta, comensalidade, linguagem e
comunicação. Em segundo lugar, há o aspecto ético ou o
que se tem como moral ou religioso (institucional): o
que se pode ou não fazer, o que se deve ou não fazer; o
que é permitido ou proibido etc. Então, vê-se o aspecto
intelectual ou a forma pela qual se pensa o mundo: a
filosofia, o pensamento, a especulação, a visão de mundo
etc. E, enfim, temos o aspecto espiritual, ou seja, tudo
o que se refere ao que está além dos sentidos, o que é
metafísico ou o que leva ao além mundo. Esse aspecto,
apresentado pelas escrituras e pela sucessão discipular
em nossa tradição, deve ser tomado em suas camadas
simbólica ou holística e empírica. Por exemplo, os cinco
Pandavas, do Mahabharata, podem ser vistos empiricamente,
como personalidades histórias e, assim, reais, que
viveram as atividades descritas no épico, ou podem ser
vistas como uma analogia aos cindo sentidos (a visão, o
olfato, o tato, o paladar e a audição).
Os quatro aspectos de uma cultura, dados por
Bhaktivinoda Thakura, são dispostos de forma hieráquica,
o que enfatiza a diversidade. Por exemplo, se uma pessoa
vem ao templo Hare Krishna pela primeira vez, ela se
depara à priori com o aspecto físico, ou seja, notará o
que se veste e que marcas se tem no corpo, como se fala,
como se dispõe a decoração e arquitetura do espaço, o
que se come, a forma das deidades etc. Mas esse não
passa de um aspecto superficial da cultura, aqui,
vaishnava e não deve ser o parâmetro a ser tomado para
analisá-la como um todo. Em seguida, a pessoa notará o
aspecto ético: como se trata as pessoas, tais como as
crianças, as mulheres ou os idosos; o que é proibido ou
permitido etc. Porém, continuamos a tratar de detalhes
superficiais e, até certa medida, variáveis de acordo
com os indivíduos inseridos na cultura vaishnava. O que
mais importa, então, são os aspectos filosófico e, mais
ainda, espiritual. Esses, entretanto, só são disponíveis
para aqueles que pretendem se aprofundar, conhecer mais
intimamente a cultura, exigindo tempo, aproximação dos
membros para uma iniciação mais especializada com o
intuito de atingir a meta mais elevada para o ser humano:
a auto-realização – o que denota o topo da hierarquia
dos aspectos.
A vida humana se destina a quatro sentidos, ou metas,
hierarquicamente dispostos também: kama, ou prazer;
artha, ou o que se obtém com poder e trabalho; dharma,
ou o dever de acordo com a natureza; e moksha, liberação,
ou seja, a interrupção do ciclo de nascimentos e mortes,
a reencarnação ou samsara. Moksha sendo a meta mais
elevada da vida humana é alcançada quando temos pela
consciência de que somos “extra-terrestres” aqui. Em
outras palavras, estamos aqui apenas de passagem, não
pertencemos a esta esfera de vida material; assim como
os atletas do Pan estavam aqui cumprindo seu dever e
obtendo o resultado de suas ações temporariamente. Nossa
situação atual é determinada pelo karma e pelos gunas.
O karma como a lei imutável e inevitável que determina a
reação de nossas ações; é a pura 3ª lei de Newton: toda
ação gera uma reação de mesma força em direção contrária.
Os gunas, por sua vez, são os três níveis de energia que
dão forma a tudo nesse universo. A combinação das três
energias com as ações manifesta o comando ou controle do
universo e repercute em nós por meio do corpo que
possuímos agora e, assim, na natureza, ou propensões de
ação, que obtemos. Essa organização manifesta, nos
grupos ou sociedades humanas, quatro tipos de pessoa: os
brahmanas, ou intelectuais e sacerdotes; os kshatriyas,
governantes, militares e administradores; os vaishyas,
produtores e comerciantes; e os shudras, ou os
trabalhadores técnicos, artistas intérpretes, artesãos,
entre outros.
Se a diversidade é manifestada por Krishna e, como visto
acima, ela permeia toda manifestação material e
espiritual, como ver a tentativa na era atual de
promover a igualdade? Vemos essa tentativa frustrante e
frustrada com um sintoma da influência de Kali-yuga.
A dita modernidade promulga tendências que vão contra a
diversidade das sociedades arcaicas, por exemplo, a
tentativa de estabelecer a democracia ou o socialismo.
Dessa tentativa surgem aspectos caóticos de Kali-yuga
por meio da inversão de valores: a vaca, animal
doméstico da Antigüidade passa a ser o mais abusado e
explorado, cuja morte insensível é responsável (por meio
da reação pela lei do karma) pelas guerras entre os
homens; o cachorro, animal abominável pela impureza na
Antigüidade, é tido como o privilegiado “bichinho de
estimação” com direito a psicólogo, hotel e academia; o
ferro, tido como metal impuro, se tornou adorno
preferido; a ciência, meio pelo qual se alcançava de
fato, a auto-realização, ou moksha, hoje se limita em
muito à técnicas que se limitam ao material; a morte,
momento mais importante da vida humana, tida como
momento educativo para a população em sua exposição,
seguida do culto aos antepassados, hoje se dá como o
mais secreto, abominável e ignorado aspecto da vida
humana e da vida em sociedade; o culto aos deuses
doméstico, responsável pelo aspecto sagrado da vida
cotidiana, se tornou o culto no âmbito dos templos e
limitado aos fins de semana, levando ao cotidiano quase
totalmente profano; o ócio, momento de pensar a si mesmo
em busca da auto-realização, se transmutou no negócio (negação
do ócio), levando as pessoas a viverem na velocidade da
variação da bolsa de valores, sem se darem ao tão
necessário ócio da vida espiritual.
Desta forma, notamos que a igualdade não passa de uma
faceta caótica de Kali-yuga e que o Senhor Krishna
privilegia a diversidade como vemos no verso. Sri
Krishna se identifica como quatro pais diversos: Ananta,
o rei das serpentes e do planeta habitado por elas;
Varuna, o Poseidon ou rei dos mares (o qual foi adorado
pelo Senhor Rama para poder construir a ponte sobre o
oceano em direção ao Sri Lanka, no Ramayana – hoje esta
ponte é avistada por satélite, comprovando sua
existência); Aryama, o grande ancestral, brahmana ou
sábio rei do planeta dos antepassados; e Yama, ou o
Senhor da morte, do Ades.
O Senhor Krishna nos chama a atenção para Sua capacidade,
como Absoluto, de ser seres totalmente diversos e
controversos para, por exemplo, nos ajudar a não limitá-Lo
com nosso imaginário judaico-cristão, mas vê-lo como o
Todo-Absoluto independente de quem nada pode existir,
pois, é a fonte de tudo, inclusive da divina diversidade
ou variedade.
Texto: Gitamrta Devi Dasi
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