Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna - ISKCON | Fundador-Acarya: A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

  
 
 

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:: Aula de Domingo especial dia das Mães

Aula do Bhagavad-Gita ministrada no dia 01/02/09, Domingo,
    por Keli Parayana Das


No dia 01/02 tivemos, no espaço locado para os Festivais de Domingo, uma aula do Bhagavad-Gita ministrada pelo prabhu Keli Parayana, discípulo de Hridayananda Das Goswami. Foi escolhido o capítulo 18, verso 73:


       “arjuna uvaca
nasto mohah smrtir labdha tvat-prasadan mayacyuta
sthito 'smi gata-sandehah karisye vacanam tava


arjunah uvaca - Arjuna disse; nastah - dissipada; mohah - ilusão; smrtih - memória; labdha - recuperada; tvat-prasadat - por Sua misericórdia; maya - por mim; acyuta - ó infalível Krishna; sthitah - situado; asmi - estou; gata - removidas; sandehah - todas as dúvidas; karisye - executarei; vacanam - ordem; tava - Sua

Tradução: Arjuna disse: Meu querido Krishna, ó pessoa infalível, agora minha ilusão se foi. Por Sua misericórdia, recuperei minha memória. Agora me sinto firme e não tenho dúvidas e estou preparado para agir segundo Suas instruções.

SIGNIFICADO: "Em sua posição constitucional, a entidade viva, representada por Arjuna, tem que agir conforme a ordem do Senhor Supremo. Ela precisa desenvolver autodisciplina. Sri Caitanya Mahaprabhu diz que a verdadeira posição do ser vivo é prestar serviço ao Senhor Supremo eternamente. Esquecendo-se deste princípio, ele se condiciona à natureza material, mas servindo ao Senhor Supremo ele se torna o servo puro de Deus. Em sua posição constitucional, a entidade viva é um servo; ela tem que servir ou à maya ilusória ou ao Senhor Supremo. Se presta serviço ao senhor Supremo, ela está em sua condição normal, mas se preferir servir à energia ilusória e externa, então com certeza estará no cativeiro. Em ilusão, a entidade viva está servindo neste mundo material. Embora atada à sua luxúria e desejos, ela se julga o senhor do mundo. Isto se chama ilusão.

Quando a pessoa se libera, sua ilusão acaba, e ela se rende voluntariamente ao Supremo para agir conforme os desejos dEle. A maior ilusão, a maior armadilha de maya para apanhar a entidade viva, é propor que ela seja Deus. A entidade viva pensa que deixou de ser uma alma condicionada, que agora é Deus. Ela é tão sem inteligência que não pensa que, se fosse mesmo Deus, como poderia então estar com dúvidas? Ela não poderia isto. Portanto, esta é a última armadilha da ilusão. Na verdade, ficar livre da energia ilusória é entender Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, e concordar em agir segundo Sua ordem.

Neste verso, a palavra moha é muito importante. Moha refere-se àquilo que se opõe ao conhecimento. De fato, o verdadeiro conhecimento é a compreensão de que cada ser vivo é um servo eterno do Senhor, mas em vez de aceitar esta posição, a entidade viva pensa que não é servo, mas que é dono deste mundo material, pois ela quer assenhorear-se da natureza material. Esta ilusão pode ser eliminada pela misericórdia do Senhor ou pela misericórdia do devoto puro. Quando esta ilusão acaba, ela passa a agir em consciência de Krishna.

Consciência de Krishna é agir segundo a ordem de Krishna. A alma condicionada, iludida pela energia material externa, não sabe que o Senhor Supremo é o senhor que é pleno em conhecimento e proprietário de tudo. Tudo o que Ele deseja Ele pode conceder a Seus devotos; Ele é o amigo de todos e está especialmente inclinado a satisfazer Seu devoto. Ele é o controlador desta natureza material e de todas as entidades vivas. Ele é também o controlador do tempo inesgotável e é pleno em todas as opulências e todas as potências. A Suprema Personalidade de Deus pode até mesmo Se entregar ao devoto. Aquele que não O conhece está sob o encanto da ilusão e não se torna um devoto, tornando-se assim um servo de maya. Arjuna, entretanto, após ouvir a Suprema Personalidade de Deus falar o Bhagavad-gita, livrou-se de toda a ilusão. Ele pôde compreender que Krishna era não só seu amigo, mas a Suprema Personalidade de Deus. E ele realmente compreendeu Krishna. Logo, estudar o Bhagavad-gita é passar a desenvolver a verdadeira compreensão sobre Krishna. Quando se está em pleno conhecimento, é natural a rendição a Krishna. Ao compreender que o plano de Krishna consistia em impedir que a população aumentasse desnecessariamente, Arjuna concordou em lutar segundo o desejo de Krishna. Ele pegou suas armas de volta - suas flechas e arco - para lutar sob a ordem da Suprema Personalidade de Deus."


Ao dar início a sua explicação, o prabhu nos disse que este verso resume tudo o que anteriormente fora explicado no Bhagavad-Gita.

Os significados dados por Srila Prabhupada, disse-nos o palestrante, foram escritos em êxtases amorosos, em que Srila Prabhupada exaltava o auge de seu amor por Krishna. Nos explicou que, quando a pessoa que esqueceu de sua relação com Deus recorda-se de seu vínculo com Ele, tal pessoa passa a não ter outra atitude senão a de reaver a sua atividade com o Senhor.

Prabhu Keli nos disse que Krishna às vezes se utiliza de Seus devotos para passar algum ensinamento, como no caso de Arjuna. Porém, pessoas que analisam a história de Arjuna somente com um olhar superficial podem vir a julgá-lo e dizer que ele foi imoral por lutar em uma guerra fratricida. Porém, ressaltou-nos que não há atitude imoral para Krishna e nem para uma alma liberada, como no caso de Arjuna, um devoto puro empregado por Krishna para realizar um passatempo e, com ele, passar-nos ensinamentos.

Deu-nos, como exemplo, o caso de São Francisco de Assis que, em um momento de sua vida, passou a renunciar a seus bens, jogando fora os pertences de seus pais. Então, disse-nos prabhu Keli que a crítica pode ser feita, caso venhamos a olhar superficialmente o ocorrido, mas que as atividades das almas liberadas estão sempre voltadas a servir o Senhor Supremo.

Prosseguindo, o palestrante falou-nos que Arjuna precisava desenvolver auto-disciplina, e que uma vez que somos auto-disciplinados, podemos agir de forma estranha, segundo a crítica proveniente da maioria das pessoas. Como exemplo citou-nos a anarquia, pois quando nos tornamos auto-disciplinados, não existe mais a necessidade de alguém nos dizer o que é certo ou errado, já que adquirimos o hábito de fazer o certo, comportando-nos de maneira exemplar. Logo, a anarquia passa a ter sentido quando se trata de uma população de indivíduos auto-disciplinados.

Um outro exemplo interessante dado pelo prabhu foi o de uma rainha que, contrariada, passou a deixar rastros, como pulseiras e acessórios jogados nos aposentos do reino. O rei então percebeu e, ao ver sua esposa debruçada em um sofá chorando, disse-lhe: "Minha querida, diga-me quem te fez chorar, pois se não foi um brahmana auto-controlado, eu o decapitarei!". Dessa forma, pudemos compreender a confiança que, no exemplo, foi dada por um rei a uma pessoa auto-disciplinada.

O autoconhecimento nos leva ao autocontrole e, portanto, à anarquia, e nela a pessoa sabe quem ela é, o que deve ser feito e o faz.

Citou-nos também o caso dos monges e a dificuldade, a princípio muito comum, encontrada por eles em seguir as obrigações diárias. Porém, proporcionando um rumo correto, de confiança e que garanta o sucesso ao cumpri-lo, a Consciência de Krishna ensina o autocontrole, através do autoconhecimento.

Professor de yoga, o prabhu nos explicou que praticantes de yoga têm que se autoconhecer para terem consciência de seus limites, pois a satisfação da prática se dá com a ampliação de suas capacidades e a superação de seus limites.

Falou-nos sobre a auto-satisfação que, quando adquirida, faz com que a pessoa não mais espere ou procure a satisfação em outrem, e passe a não mais depender de fatores externos. Ao tornar-se auto-satisfeita, a pessoa também é autocontrolada, e para isso ela deve possuir autoconhecimento. Logo, autoconhecimento gera auto-satisfação, que leva ao autocontrole.

Ao se levar uma vida espiritual, a autodisciplina é uma tema muito sério, disse-nos prabhu Keli, e apesar de estarmos em condições mundanas, seremos sempre servos do Senhor Supremo. Fazer o certo é nos ocupar em serviço ao Senhor Supremo.

Prosseguindo sua aula, prabhu Keli disse que, na literatura vaishnava, encontramos como deve ser a nossa atitude para a transcendência, sendo que nossas atividades devem estar em serviço amoroso e espontâneo ao Senhor Supremo. E para recordar e adquirir tal estado de consciência, precisamos compreender que, com disciplina, poderemos agir corretamente e lembrar-nos de nossa real posição, que é a de servir.

"Servir" é um ponto complicado, ressaltou o palestrante, pois desejamos ser servidos e não servidores. Mas a posição da entidade viva é a de servidor, embora na natureza material queiramos sempre ser servidos.

Uma passagem engraçada, contada pelo palestrante, foi um caso ocorrido no orkut, quando, por estar escrito "Dasa" no nome de um devoto, um internauta perguntou o que tal palavra significava, recebendo como resposta a palavra “escravo”. Porém, é preciso distinguir o sentido pejorativo do sentido que leva à situação em que a estamos utilizando, e esta precisa ser bem compreendida.

Quando uma pessoa entende o seu relacionamento com Deus, ela entende que terá sempre que prestar serviço a Ele, e ela o prestará de maneira espontânea e amorosa. Mesmo querendo ser senhores, não somos senhores de nada e isto, quando compreendido, gera grande frustração, pois a verdade é que mesmo parecendo senhores, o fato é que estamos sempre servindo, e se não estamos servindo a Deus, que é o fruto de nossa verdadeira essência, estamos servindo a Maya, no cativeiro e na ilusão. Também explicou-nos o prabhu que a maior armadilha de Maya, para prender a entidade viva no mundo material, é nos fazer pensar que somos Deus, pois pensar assim é algo muito fácil, uma vez que o difícil é compreender Krishna, a Suprema Personalidade de Deus.

Exemplificando, prabhu Keli contou-nos uma estória, em que um lobo com fome não conseguia caçar presa alguma, e então foi procurar alimento no lixo de uma vila. Lá, devido ao barulho que causou no latão de lixo, chamou a atenção dos moradores e, amedrontado, fugiu, tropeçando em um balde de tinta, lambuzando-se totalmente. Voltando para sua alcatéia, seus membros começaram a admirá-lo, já que estava todo pintado, e a dizer que o achavam lindo e algo muito além de um simples lobo. O lobo começou a acreditar que realmente era uma criatura muito além de um lobo, e uma noite, ao uivar com os outros lobos no topo de uma colina, caiu uma forte chuva, fazendo com que ele perdesse todo o seu brilho. Srila Prabhupada sempre contava esta estória a seus discípulos, para mostrar o quanto é perigoso pensarmos que somos Deus.

Então Consciência de Krishna é agir segundo as ordens de Krishna, quando a ilusão se dissipa, e agirmos em Consciência de Deus.

Portanto, falou-nos o palestrante, precisamos saber como atua uma pessoa espiritualizada e que está com o coração ardendo em transcendência, pois estamos acostumados com a anormalidade, assim como o exemplo dado por Platão em A República, onde a consciência é ordenada e limitada pela visão, na famosa alegoria da caverna. Mas Srila Prabhupada nos trouxe a maneira de escapar da ilusão, com a ponte para atravessarmos e chegarmos à transcendência.

Foi feita uma pergunta por um dos presentes, que queria saber, com relação às atividades executadas pelas pessoas, como analisar os que abandonam suas tarefas e ficam reclusos em meditação constante.

O palestrante respondeu que a relação com Deus é individual e, assim como existem milhares de almas, existem milhares de maneiras de se relacionar com Ele. Dessa forma, as pessoas que se afastam e se recolhem à meditação estão, à sua maneira, relacionando-se com Deus.

Com o final de sua aula, prabhu Keli agradeceu aos ouvintes e iniciou-se o Arotik.

Texto: Bhaktin Carla
 

 
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