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A aula deste último domingo, dia 9 de
março, foi dada pelo Presidente do Adi Templo de São
Paulo, Prabhu Nanda Kumara Das, discípulo de Sua
Santidade Candramukha Swami, que antes da aula saudou a
todos e explicou um pouco sobre o contexo no qual o
Bhagavad-gita foi primeiramente proferido.
O verso do “Bhagava-gita como Ele é”
escolhido foi o 2.14, que na tradução para a língua
portuguesa fica:
matra-sparsas tu kanteya
sitosna-sukha-dudkha-dah
agamapayino 'nityas
tams titiksava bharata
matra-sparsas - persepção sensorial; tu
– mas; kaunteya - ó filho de Kunti; sita – inverno;
usna – verão; sukha – felicidade; dukha – e dor; dah –
dando; agama – aparecendo; apayinah – desaparecendo;
anitya – não permanentes; tan – todos eles; titiksava -
apenas tente tolerar; bharata – ó descendente da
dinastia Bharata
Tradução:
Ó filho de Kunti, o aparecimento
temporário da felicidade e da aflição, e o seu
desaparecimento no devido tempo, são como o aparecimento
e o desaparecimento das estações de inverno e verão.
Eles surgem da persepção sensorial, ó descendente de
Bharata, e precisa-se aprender a tolerá-los sem se
perturbar.
SIGNIFICADO:
Na adequada
execução
do dever, a pessoa tem de aprender a tolerar
aparecimentos e desaparecimentos transitórios de
felicidade e aflição. Conforme o preceito védico, deve-se
tomar banho de madrugada, mesmo durante o mês de magha (janeiro-fevereiro).
Faz muito frio nessa época, porém, apesar disso, um
homem que acata os princípios religiosos não hesita em
tomar seu banho. Da mesma forma, uma mulher não hesita
em trabalhar na cozinha nos meses de maio a junho, a
parte mais quente da estação do verão. Todos devem
executar seu dever apesar das inconveniências climáticas.
De modo semelhante, lutar é o princípio religioso dos
ksatryas, e, embora tenha de lutar com algum amigo ou
parente, ele não deve afastar-se de seu dever prescrito.
Convém seguir as regras e regulações prescritas nos
princípios religiosos para que se possa elevar à
plataforma de conhecimento , porque somente pelo
conhecimento e pela devoção é que alguém pode se
libertar das garras de maya (ilusão). Os dois nomes
diferentes dados a Arjuna também são significativos.
Tratá-lo de Kaunteya significa aludir a seus fortes
laços consangüineos por parte de sua mãe; e chama-lo de
Bharata significa referir-se à sua grandeza por parte do
pai. Ele tem uma descendência fantástica de ambos os
lados . Uma descendência destas implica responsabilidade
na execução dos deveres, portanto, ele não pode evitar a
luta.”
Nanda Kumara Das iniciou sua palestra explicando os
versos anteriores da obra, que culminaram no assunto da
intolerância. Krishna havia explicado que a alma
transmigra de um corpo para outro, e que a pessoa
ponderada não se abala com esse movimento. Neste verso,
Krishna explica a Arjuna que a pessoa ponderada não se
abala, ainda, com a felicidade e tristeza transitórias.
O palestrante explicou que não só a aflição, como também
a felicidade nos perturba, e que uma alma ponderada sabe
que a mudança é a característica do mundo material, e
por isso ela não se abala.
Explicou que tudo muda, até as células do corpos se
renovam periodicamente, exemplificando a natureza do
mundo material. Em contrapartida, relembrou a platéia
que, embora nossas células se renovem, ainda assim somos
sempre as mesmas pessoas.
Disse que essa mutabilidade do mundo material não abala
a pessoa ponderada, mas é muito comum que nós nos
deixemos levar por esses momentos de sofrimento ou de
felicidade.
Nanda Kumara Das alertou a todos que o texto faz
menciona que o sábio não se abala, também, pelos
momentos de felicidade, pois essa também é capaz de
desestabilizar a alma. Demonstrou a efemeridade da
felicidade, com a história do estudante que se põe feliz
por ter passado em um vestibular, mas logo se deixa
entristecer pelas responsabilidades que surgem da vida
acadêmica.
Relembrou, ainda, à platéia, a história contada no
Srimad Bhagavathan do rei que, desejoso de ter um filho,
se casou mil vezes, sempre com uma rainha estéril. Em
seguida, ao ver o rei entristecido, um sábio tornou
possível que o rei tivesse um herdeiro. Feliz com a
criança que veio ao mundo, o rei logo se entristeceu
quando a criança foi envenenada por uma invejosa rainha
que não gerara a descendência. Mas uma vez abalado pela
tristeza, dessa vez pela perda do filho querido, foi o
rei contemplado pelo sábio, que propiciou um último
encontro entre o pai e seu finado filho. Agora, mais uma
vez, o rei encontrava insatisfação, pois com a
consciência de jiva, seu filho não podia mais reconhecer
o pai, dentre milhões e milhôes de outros pais que
tivera em vidas passadas.
Explicou, o palestrante, que a felicidade do rei estava
baseada no conceito material de filiação e, portanto,
também se baseava em conceitos materiais e transitórios,
que são perdidos da mesma forma com que perdemos contato
com muitos de nossos amigos de infância. Resumindo,
disse que a felicidade e a aflição são dois lados de uma
mesma moeda.
Relembrou, ainda, que a Rainha Kunti nos ensina no
Srimad Bhagavatham a aceitar as misérias como parte do
nosso desenvolvimento espiritual, tendo em vista que,
quando estamos imersos na felicidade, logo ficamos
desejosos de mais e mais, o que acaba se tornando
insatisfação e aflição.
Explicou que quando se troca o eterno pelo temporário,
perde-se os dois, uma vez que o temporário logo acaba, e
exemplificou a situação comparando-a à narração do filme
"Cidade dos Anjos". Explicou também que o temporário nos
é chocante, pois a alma é eterna, e para quem é eterno,
tudo o que é temporário parece chocante.
Nanda Kumara Das alertou a platéia que, embora Krishna
tenha aconselhado Arjuna a lutar - aparentemente um ato
de intolerância, na verdade Arjuna estava lutando por
princípios verdadeiros, e não por qualquer assunto
material.
Disse, o palestrante, que tolerância gera introspecção,
que consiste em analisarmos tudo que que devemos fazer -
mas para que isso exista, é necessário termos bases
sólidas, que desenvolvemos com a ajuda do mestre
espiritual fidedigno, pois este viu a verdade.
Explicou que, quando nos associamos com as escrituras
sagradas e com as pessoas santas, imediatamente nos
associamos aos valores compartilhados por esses textos e
essas pessoas, de forma que assim desenvolvemos
conhecimento e, conseqüentemente, tolerância.
Ressalvou que para se ter tolerância é necessário
conhecimento, que deve ser obtido por meio do mestre
espiritual. Ressaltou, o palestrante, que conceitos de
certo e errado baseados nos sentidos são falíveis, não
sendo possível confiar nos sentidos. Por isso devemos
buscar a verdade de autoridades, tal como o filho deve
perguntar quem é seu pai à sua mãe.
Exemplificando, Nanda Kumara Das disse que existem
estradas sinalizadas que ligam São Paulo a Santos, e que
um viajante que decidisse passar de uma cidade a outra
pelas florestas da Serra do Mar correria riscos
desnecessários e encontraria um sem-número de
dificuldades, que poderiam ser evitadas caso o viajante,
utilizando-se das estradas, seguisse a sinalização. Da
mesma forma, o viajante do serviço devocional deve
seguir as ecrituras sagradas e as instruções do mestre
espiritual, tal qual o viajante pega a estrada e segue
as placas.
Explicou, por fim, que desenvolver amor puro por Deus é
a verdadeira e duradoura felicidade.
Abriu espaço para perguntas e respostas.
A primeira pergunta indagou como um discípulo reconhece
seu mestre espiritual.
Como essência da resposta, o palestrante explicou que
cada caso é um caso, e que, embora alguns discípulos
possam perceber, de forma mais mística, em seu coração
quem é seu mestre espiritual, a melhor maneira de se
reconhecer o guru é por meio da análise da linha de
suscessão discipular do mestre. Explicou, também, que o
discípulo deve se qualificar como discípulo.
Um visitante que lera uma versão do Gita perguntou se
Arjuna representa, na verdade, o eu humano, e se Krishna
representa o eu dividno que todos devem buscar.
O palestrante respondeu, então, que várias leituras
podem ser feitas do Gita, tais como alguns fazem uma
leitura histórica do texto, porém a única forma de se
conseguir auto-conhecimento é através da aproximação do
mestre-espiritual fidedigno. Relembrou ainda que Krishna
não tem uma linguagem nebulosa, ou que dê margem à
duvidas; pelo contrário, Krishna é objetivo e direto
quando aborda os vários tópicos que discutiu com Arjuna.
Asseverou, ainda, o palestrante, que embora sejamos
divinos a mente nos impele para o que não é divino, de
forma que, também por isso, é necessário que quem quer
que procure entender o Gita se aproxime de um mestre
espiritual fidedigno.
Perguntaram, ainda, o que fazer quando um mestre
espiritual falece.
Nanda Kumara das explicou que o mestre deixa instruções
e irmãos espirituais que podem ajudar o discípulo a
continuar sua vida espiritual. Além disso, o discípulo
deve escolher um shiksha guru.
Uma visitante comparou, então, a leitura do Gita,
desacompanhada de um mestre espiritual, como uma espécie
de analfabetismo funcional.
O palestrante ressaltou então, mais uma vez, que para se
evitar esse analfabetismo funcional em relação ao Gita,
o discípulo sincero deve se aproximar de um mestre
espiritual (relembrando, ainda, que Krishna também dá o
conhecimento necessário ao discípulo, para que O alcance).
Texto: Bhakta Daniel
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