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:: Aula de Domingo com Rama Putra Das

Aula de Param Gati Swami no Adi-templo em Abril de 2008

Sua Santidade Param Gati Swami prestigiou-nos alguns dias com sua permanência no Adi-Templo, e no dia 15 de Abril pudemos desfrutar de uma interessante aula do Bhagavad-Gita ministrada por Sua Santidade. Maharaj também deu a aula do Srimad Bhagavatam no mesmo dia, às 08h, mas muitos de seus discípulos só puderam comparecer às 19h30min, na aula do Bhagavad Gita, devido a seus afazeres rotineiros.

Antes de ler o verso escolhido, o Swami nos deu uma introdução a respeito do Bhagavad-Gita dizendo que este, como o próprio nome diz, é uma canção entoada por Bhagavam, sendo o Bhagavad Gita diretamente falado por Krishna, e que mesmo na Índia algumas pessoas não o entendem, por ser um livro difícil.

Nos explicou que Krishna raramente vem a este planeta Terra, e que Sua vinda se dá somente uma vez a cada dia de Brahma, depois de um longo período de 4 bilhões e 300 milhões de anos, muito tempo para nós seres humanos, sendo que a única razão pela qual Krishna vem é a de convidar suas eternas partes e parcelas que estão separadas dEle, vivendo neste mundo, identificadas com a matéria, a de novo estar com Ele no mundo espiritual e a participar de Suas lilas transcendentais. Infelizmente existem muitas interpretações disto, porém o ponto é muito simples, porque Krishna vem unicamente com este propósito.

Maharaj nos sintetizou um passatempo de Krishna, de quando Ele estava em Mathura com Udhava, que era uma espécie de secretário Seu, sem dúvida totalmente liberado e associado eterno do Senhor, e que quando vem, atua como Seu conselheiro. Sempre que existiam dúvidas, ou estratégias a serem adotadas, Krishna perguntava a Udhava o que fazer, e este lhe dava o conselho correto. Como exemplo citou os Pandavas, quando saíram anunciando que Yudhisthira era o imperador. Era o costume na época que, quando alguém era proclamado imperador, os outros reis e líderes locais, como um gesto de aceitação, contribuíam com algo, e esta contribuição era um sinal de que aquele rei local aceitava o novo imperador. Os pandavas, porém, ficaram desapontados quando um rei local não fizera a sua contribuição , então encontraram-se em um dilema, e deram eles várias opiniões diferentes. Quando Krishna pergunta então a Udhava "O que fazer?", ele concebe um plano, de que Krishna deveria ir disfarçado como brahmana, juntamente com Arjuna e Bhima, até o rei local e destruí-lo. O Swami nos disse que esta história está no Livro de Krishna, sendo uma das histórias mais fascinantes com a qual ele já havia tido contato, e fez um comentário divertido, dizendo que hoje em dia as pessoas são tão atraídas por histórias fantásticas, como Homem Aranha, O Senhor dos Anéis, Harry Potter, sendo esta uma tendência que voltou dos grandes heróis, mas que quando lemos o Livro de Krishna, encontramos tudo ali, porém como uma diferença, de que é tudo verdade!

Sua Santidade nos disse que Udhava estava com Krishna em Mathura, e que Krishna estava em Seu palácio, na sacada, andando de um lado para o outro olhando para o céu, quando de repente Ele parou e disse que na verdade, Ele nunca quisera deixar Vrindavana e, se Ele a deixou, fora unicamente para cumprir a Sua missão neste mundo. Então o Bhagavad-Gita, na verdade, existe para que a pessoa possa desenvolver apego por Krishna, sendo esta a única razão pela qual Krishna o falou, para lembrar o ser vivo de que ele tem uma conexão direta e eterna com Krishna e que ele deve de alguma forma tentar cortar o ciclo de nascimentos e mortes, mas como isso é algo muito difícil de ser captado, Krishna volta como Sri Caitanya Mahaprabhu para explicar ao mundo o que Ele quis dizer 5 mil anos atrás. Esse é o movimento de Sankirtana deixado por Caitanya Mahaprabhu.
 


Foi escolhido para a aula o 4º capítulo, "O Conhecimento Transcendental", verso 38:

   na hi jnanema sadrsam
     pavitram iha vidyate
tat svayam yoga-samsiddhah                 kalenatmani vindati

na - nada; hi - decerto; jnanena - com o conhecimento; sadrsam - em comparação; pavitram - santificado; iha - neste mundo; vidyate - existe; tat - esse; svayam - em si mesmo; yoga - em devoção; samsiddhah - aquele que é maduro; kalena - no decorrer do tempo; atmani - em si mesmo; vindati - goza.

Tradução: Neste mundo não há nada tão sublime e puro como o conhecimento transcendental. Este conhecimento é o fruto maduro de todo o misticismo. E aquele que se familiarizou com a prática do serviço devocional desfruta deste conhecimento dentro de si no devido tempo.

Significado: "Quando falamos de conhecimento transcendental tomamos como ponto de referência a compreensão espiritual. Sendo assim, não há nada tão sublime e puro como o conhecimento transcendental. A ignorância é a causa de nosso cativeiro, e o conhecimento é a causa de nossa liberação. Este conhecimento é o fruto maduro do serviço devocional, e quando está em conhecimento transcendental, a pessoa não precisa procurar paz em outro lugar, pois goza da paz em si mesma. Em outras palavras, este conhecimento e esta paz culminam na consciência de Krishna. Esta é a palavra final do Bhagavad-Gita.”
 


Maharaj disse que este verso em particular explica e nos ajuda a compreender o que é o Movimento de Sankirtana, porque no geral as pessoas pensam que é mais uma religião, mas o Swami disse que o Movimento de Sankirtana não é mais uma religião, pois como no mundo já existem tantas religiões, ele não precisa de mais uma. Então o que é o Movimento de Sankirtana? É o que a leitura do verso nos ajuda a entender.

Na sua explicação, Sua Santidade disse que conhecimento não é um mero acumular de informações, que ficam registradas no intelecto, mas sim compreensão espiritual, realização, ou seja, obtermos uma informação e adotarmos uma prática que nos ajuda a chegar à realização. Logo, Maharaj disse que a realização de que Krishna fala culmina com a pessoa desfrutando com si mesma, se tornando feliz internamente, resolvida com suas emoções e dúvidas, e tudo fica bem, pois a pessoa esta de bem consigo e, conseqüentemente, de bem com o mundo, sem rancor, mágoas, medos, estresse, angústias, sendo esta também a meta, pois existem dois resultados com a prática. O primeiro é o alívio das ansiedades materiais, e a pessoa passa a se conhecer e a se compreender; dúvidas e coisas inexplicáveis que existiam dentro dela tornam-se esclarecidas. O segundo resultado é a realização de sua conexão com Krishna e, como exemplo, Maharaj Param Gati nos citou o Sol da manhã.

Antes que a pessoa possa ver o Sol, ela enxerga os efeitos do Sol, sendo que ela começa a ver todos os objetos na manhã e só depois ela vê o globo solar. Similarmente, com a prática de bhakti, ou seja, o cantar do Maha Mantra, o contato com os devotos, o estudo da filosofia, tomar prasada e tudo mais que os Acaryas nos passaram, a pessoa começa a compreender a si mesma ajudando-a a esclarecer as coisas, comparando-se então com o clarear que o Sol faz com os objetos. Segundo passo é a compreensão da conexão da pessoa com Krishna. E Maharaj enfatizou que sem a primeira fase, que é tida como a base, o "clarear" das coisas, não se pode falar em transcendência.

Krishna é o Supremo Pedagogo, e tudo o que Ele faz é perfeito, então o Swami nos disse que a metodologia usada por Krishna se resume em primeiro a pessoa ter uma compreensão dela mesma e depois, avançando, chegar ao ponto de rendição a Ele, uma vez que não se pode falar em rendição sem primeiro a pessoa ter uma compreensão de sua situação. Logo ela deve inicialmente situar-se com sua real identidade, e então com as coisas mais claras começar avançar rumo à auto realização total, que culmina na compreensão da forma eterna do ser em sua união com Krishna, numa emoção específica que é o estágio superior.

Citando Srila Prabhupada, que diz que a referência tomada é a compreensão espiritual e não simplesmente um acumular de informações no intelecto, sendo a ignorância a causa do cativeiro e o conhecimento a causa da liberação, eis a razão pela qual não há nada tão sublime e puro como o conhecimento transcendental. Sua Santidade falou-nos que este conhecimento ajuda as pessoas a livrar-se de muitos bloqueios, de muitas situações obscuras de sua própria vida, do seu relacionamento com a família, amigos, trabalho, escola, com as pessoas que ela ama, etc, tornando essas coisas claras, sendo uma conquista muito grande, conquista esta que é o conhecimento e a paz que culminam da Consciência de Krishna, e esta é a palavra final do Bhagavad Gita.

Revelando-nos a razão pela qual o Senhor Caitanya Mahaprabhu veio a este mundo, Maharaj disse-nos que fora para revelar-nos o fruto maduro de todo misticismo, sendo que existem diferentes tipos e metas que se dão com a prática do Yoga. Citando alguns exemplos, falou sobre yogues que, através do controle da mente, austeridades e penitências, acabam possuindo poderes místicos, e citou-nos Hiranyakasipu, que se tornou poderoso através da prática de austeridade e penitências. Então, os yogues que buscam estes poderes nascem, por exemplo, em planetas superiores, onde seus seres viventes naturalmente possuem poderes místicos, que é o aspecto sit do eu, e explicando Maharaj disse que o eu é composto por 3 elementos: Sat, Sit e Ananda, sendo Sat eternidade, Sit conhecimento e Ananda felicidade. Então Sit é o aspecto que provê tudo em termos de poderes místicos, potência e etc, sendo este aspecto Sit completamente manifesto no mundo espiritual.

Prosseguindo, Maharaj Param Gati disse-nos que os yogues, quando querem desenvolver esse aspecto Sit e desfrutá-lo, acabam nascendo em Siddhaloka, por exemplo. Então o desenvolvimento de uma prática espiritual provê diferentes opulências e alguns desejam desenvolver o aspecto Sit, sendo que os Vedas provêem tudo o que uma pessoa deseja, porém Krishna diz que o fruto maduro é a revelação da identidade original do ser em sua relação com Krishna e, nesse momento, o ser atinge a imortalidade, ficando livre do ciclo de nascimentos e mortes, então não há nada comparado com isso.

Caitanya Mahaprabhu, ao propagar o cantar do Maha Mantra Hare Krishna, revelou o fruto maduro de todo o misticismo, então o Swami nos contou que o movimento de Sankirtana, a prática dada pelo Senhor Caitanya Mahaprabhu, é a essência de tudo isso e, conseqüentemente, dentro dessa prática tudo se desenvolve, como boas qualidades e tudo o que é desejado e procurado em outras práticas religiosas, sendo que, pela prática do processo de bhakti, revelado por Caitanya Mahaprabhu, a pessoa torna-se enriquecida com muitas qualidades e, por isso, é o fruto maduro de todo o misticismo, que Krishna sob a forma do Senhor Caitanya Mahaprabhu revelou-nos em seu movimento de Sankirtana.

É por isso, salientou o Swami, que o Senhor Caitanya Mahaprabhu diz que toda a shakti (poderes místicos, energias...) de Krishna, está presente no Maha Mantra, e por isso o Maha Mantra não é mais um mantra, é O mantra, um mantra excepcional, porque é diretamente o nome de Krishna, não passando por nenhum intermediário.

Disse-nos o palestrante que, analisando os diferentes nomes de Krishna, cada um quando se canta nos dará um destino, e citou nomes que dão acesso a Vraja, como Krishna, Gopinatha e muitos outros, e dessa forma o Maha Mantra, o fruto maduro deste misticismo, dá acesso à Vraja, tornando-se acessível através do movimento de Sankirtana de Sri Caitanya Mahaprabhu.

Logo, a pessoa passa a desfrutar do processo de bhakti no devido curso do tempo e, se continuar praticando-o, ela terá um resultado muito benéfico; se vier a fazer uma análise de seu antes e depois, verá o quanto ela mudou e ganhou com esta prática, e sabendo que a grande mudança se dará em uma questão de tempo, ela continuará praticando e obterá o sucesso. E Maharaj concluiu sua aula dizendo que não será apenas o aspecto Sit que a pessoa terá conquistado, mas também Sat e Ananda, e então ela se tornará plenamente feliz, conquistando a imortalidade.

Terminada sua aula, Maharaj Param Gati abriu espaço para perguntas e comentários.

Um ex monge comentou com Maharaj que o conhecimento é tido como a parte principal, porém ressaltou que conhecimento é algo muito complexo e que, para pessoas como ele, que deixara de ser monge e passara a viver fora do templo, o acesso a diferentes informações que abordavam assuntos como a alma e a matéria, por vezes entravam em oposição com o que ele havia aprendido. Então, o prabhu entrou neste conflito, e citou a cultura grega onde se diz que para se chegar a uma síntese, a conclusão de algo, é necessário estudar algo de forma integral, e uma vez um devoto havia lhe comentado que os devotos não entendem de psicologia e afins, mas apenas dos livros de Prabhupada, e então expôs a sua situação ao palestrante.

Maharaj explicou que auto realização é algo individual e, aproveitando o exemplo dado pelo prabhu, falando dos gregos, e também se baseando em um livro francês escrito por um cientista e filósofo indiano, chamado Árvore dos Desejos, que analisa que, depois da liberação da Índia, houve uma nova geração que reescreveu a história da Índia e, com muitos elementos históricos, mostrou como as culturas antigas, como a grega por exemplo, foram muito influenciadas pela Índia. Então, se um bhakti yogue deseja fazer pesquisas, tudo bem, pois os Vedas contém suficiente informação e elementos para que a pessoa compreenda a sua própria situação neste mundo, compreendendo finalmente sua relação eterna com o Supremo. Agora se um devoto deseja fazer pesquisas para comparar e enriquecer sua bagagem, isto é sua posição pessoal. E ainda frisou, dizendo que a riqueza de bhakti, a consciência de Krishna, é muito ampla, universal, sendo recíproca à inclinação de cada pessoa, então, por exemplo, devido a vidas passadas, ou a um trabalho feito em vidas anteriores, uma pessoa chega a esta vida e diz: "Não preciso de mais nada, estou completamente satisfeito com o que estou praticando", porém, um outro indivíduo em situação semelhante, chega a esta vida e diz: "Ainda preciso pesquisar", tudo bem, pois não devemos julgar, acusar, mas sim compreender cada pessoa que possui suas necessidades características e Krishna satisfará a todos os desejos, como é dito no Bhagavad-Gita.

Uma segunda pergunta foi feita por um ouvinte que lembrou o que Maharaj havia dito com relação ao Bhagavad-Gita, afirmando ser um livro difícil de se entender, sendo pouquíssimas as pessoas que realmente o entendem, e afirmou o ouvinte que não compreendia nem mesmo os devotos, e que uma vez teve um amigo que abandonara a vida material e passou a dedicar-se somente a espiritual. Disse também o senhor que quando passou a freqüentar o templo e a conhecer os devotos nada entendia, porém cantava e repetia o que via os outros fazerem, pois achava gostoso. Então, aproveitando o que um prabhu em aula havia dito, que um conhecimento encontrado apenas no mental e intelectual e não no espiritual, acabava se perdendo com o tempo, concluiu que talvez o processo tão simples Hare Krishna se torne complicado para as almas complicadas, assim como ele, frisou. Então perguntou a Maharaj, o que ele sugeriria para que ele pudesse se aproximar mais dos devotos e do movimento.

Muito simpático Maharaj sorriu e disse que o Bhagavad-Gita é univermético, e que se torna facilmente compreendido graças ao Senhor Caitanya Mahaprabhu. Foi dito pelo palestrante que as pessoas não entendiam o Bhagavad-Gita, porém Krishna volta e explica o que Ele quis dizer 5 mil anos atrás. Então, graças ao movimento de Sankirtana, o Bhagavad-Gita torna-se facilmente compreendido. Disse também que mesmo na Índia é muito comum quando os devotos ocidentais aparecem por lá, encontrarem indianos a fim de conversar com os ocidentais que vestem dothi e tilaka, o que eles acham muito curioso. E por vezes nas conversas, os indianos perguntam se os devotos ocidentais conhecem o Bhagavad-Gita, e como era de se esperar, eles respondem que sim, e curiosamente às vezes constatam que os próprios indianos não conhecem o Bhagavad-Gita. Prosseguindo sua explicação, disse também que o Bhagavad-Gita se torna compreensível também graças ao Maha Mantra Hare Krishna, pois sem ele seria impossível a compreensão de tal livro, pois o Maha Mantra é Krishna, então graças ao seu cantar, como Krishna diz no Bhagavad-Gita: "Àquele que me serve com atitude favorável eu dou a inteligência pela qual ele vem a Mim". Então esta dita inteligência não é material, como por exemplo, a inteligência com que se faz um microfone, um computador, mas sim uma inteligência transcendental mística, secreta, que é dada diretamente por Krishna. E Maharaj questionou: "Como Krishna nos dá essa inteligência transcendental mística?" e respondeu: "Através da atitude favorável explicada pelos Acaryas, que nos ensinam a maneira pela qual desenvolvemos esta atitude favorável." Assim, o Bhagavad-Gita se torna facilmente compreendido, pois de outra forma ele continuaria sendo um mistério.

Um terceiro devoto comentou que, quando a fé inabalável que se tem no mestre espiritual se torna a mesma fé que se tem em Krishna, toda a essência do conhecimento védico é revelada, e para uma pessoa que não é um bom filho, um bom pai, um bom esposo, etc, fica muito difícil ser um discípulo e um estudante sincero. Porém, disse também que ainda que um devoto venha a ter problemas familiares, quando passa a ter uma relação sincera com Krishna, as vezes a boa relação com os devotos ajuda a curar a má relação com a família. Neste caso, como a relação com os devotos pode se dar para curar as más relações?

Em sua resposta, Maharaj Param Gati disse que na época védica, as meninas eram educadas em casa, enquanto os meninos no gurukula, sendo que eles não vinham com nenhum tipo de problema emocional, nenhum tipo de trauma, abuso psicológico, físico, sexual, etc; porque já vinham de famílias equilibradas que também eram treinadas no gurukula. Então era uma tradição de milhares de anos, onde eles naturalmente eram saudáveis emocionalmente, tornando-se bons discípulos. Porém, vemos que devido à intervenção de Caitanya Mahaprabhu, mesmo estudantes que tinham problemas com os pais, ou a sociedade em geral, no devido curso do tempo resolviam os seus problemas, graças ao cantar do Maha Mantra, e Maharaj falou que existem muitos exemplos que constatam esta realidade, como o de devotos que disseram que todos os seus problemas foram revelados com a continuidade das práticas de bhakti, e eles passaram a perdoar os pais, e etc.

Em mais uma pergunta, o devoto que havia sido monge disse que, na época em que ele era brahmacari, sempre ouvia os mestres espirituais e os devotos falarem sobre um filósofo alemão que saiu à procura de Deus e que, chegando à Índia, foi a vários templos, até que chegou no templo de Govinda e pensou: "Ah! Este bate exatamente com a imagem que eu tenho de Deus!", e o devoto, curioso, pesquisou para saber quem era este filósofo e descobriu que ele era Nietzsche. Logo afirmou que não devíamos generalizar, dizendo que todos os filósofos são ateus e impersonalistas.

Maharaj complementou dizendo que a filosofia é boa se ela nos ajuda a compreender a transcendência. E disse que fora descoberto uma carta que Nietzsche mandou a um amigo onde ele falava sobre a imagem que as pessoas tinham dele ser ateu, e se explicou, dizendo que não o atraía o Deus que sempre castiga, manda a todos pro inferno, e que as pessoas tem que temer, mas que o atraía o Deus que brinca, dança, etc. Também comentou que nesta época, na Alemanha, houve um movimento, que era uma espécie de moda védica, no século XIX, e que fora descoberto na França, há alguns anos, uma tradução de Victor Hugo onde ele fala sobre Indra e planetas celestiais. Este movimento de moda védica ocorreu no século XIX até os anos 20 e 30 do século XX, e depois Hitler o recuperou, e Maharaj disse que o próprio Hitler era vegetariano e tinha um Guru.

Um devoto comentou que, para cantarmos os santos nomes, é preciso se livrar das 10 ofensas e limpar o coração, para que Krishna possa agir de fato em nossa vida.

E Maharaj falou-nos que ao propagar o Maha Mantra Hare Krishna, Caitanya Mahaprabhu também explicou como cantar, devendo-se levar o canto com informação e conhecimento para que a pessoa possa obter os seus resultados, tornando o processo algo prazeroso e não mecânico, fazendo com que a pessoa tenha consciência da meta a se alcançar através do seu cantar. Disse-nos o Swami que a informação a respeito disto encontra-se no Néctar da Instrução, no Caitanya-Caritamrta e também no segundo canto do Srimad Bhagavatam .

Todavia, Maharaj disse que algum benefício sempre se tem com o cantar do Maha Mantra, pois é um cantar puro, mas a fim de que esta prática amadureça, Caitanya Mahaprabhu enfatizou enormemente a informação de como se cantar e por isso muitos livros foram escritos por Acaryas, e o Swami frisou que devemos lê-los.

Um ouvinte então questionou Maharaj sobre se, quando um não devoto ora a Krishna, porém desejoso de bens materiais, está incorrendo em pecado.

O Swami citou Prabhupada que, baseado em um canto do Srimad Bhagavatam, diz que não importa a condição em que tal pessoa se encontre, pois se ela se ocupa em bhakti, se ela canta Hare Krishna, Krishna satisfaz todos os desejos. Porém disse Sua Santidade que os devotos procuram canalizar isto para obter serviço devocional puro, mas que isso não quer dizer que materialmente eles tenham que ser miseráveis, mas sim que no devido curso do tempo, eles renunciam, mas a opulência material existe e a matéria é boa segundo a maneira como nós a utilizamos. Portanto não devemos culpar o mundo material, mas a forma como o manipulamos; logo, se bem utilizada, a matéria não nos causa problema, pois o problema não é externo, mas sim interno.
Maharaj também disse que quando Krishna satisfaz todos os desejos materiais de uma pessoa que ao mesmo tempo quer Krishna, Ele a ajuda a realizar gradualmente que a meta última é voltar ao Supremo.

Tivemos então um pergunta que causou os risos dos presentes. Um ouvinte então questionou a respeito do "haripobre", e o medo dele ganhar dinheiro, pois as vezes ele cultiva o medo ao invés de cultivar a fé. Por que não ganhar dinheiro e ajudar o movimento?

E Maharaj Param Gati disse que cultivar o pensamento de que não se deve ter nada material é extremamente artificial, e se um devoto voluntariamente deseja renunciar, é uma posição pessoal dele, pois existem muitos devotos ricos no movimento, e este fato em nada atrapalha as suas devoções a Krishna. E citou um exemplo da construção de um templo védico em Mayapur que está sendo financiado por um descendente de uma família muito rica que, sendo devoto, usa grande parte da riqueza dele para o movimento. Portanto a riqueza não é má, o problema é a forma como ela é usada, e concluindo este raciocínio Maharaj prosseguiu, dizendo que se um grihasta, um comerciante tem dinheiro, perfeito, que ele seja muito rico e que use parte de sua riqueza para a propagação do movimento da Consciência de Krishna.

O palestrante então nos deu um exemplo histórico, sobre a Índia, e nos indagou: "Por que a Índia foi a terra mais cobiçada da história?", dizendo que nas grandes navegações, 500 anos atrás, Alexandre o grande, assim como os ingleses e muitos outros povos, todos queriam chegar à Índia, que era muito cobiçada por ser rica, opulenta, e isso 500 anos atrás, imagine há 5.000 anos! Maharaj citou um livro publicado na França, A História da chegada dos muçulmanos na Índia, onde se diz que, quando os muçulmanos chegaram em Mathura, eles disseram: "Nós diríamos que esta cidade caiu do céu!". Então era esplêndida a opulência e sofisticação dos palácios de Mathura, isso 1.000 anos atrás, porque depois destruíram tudo. Portanto a cultura védica foi a mais opulenta materialmente, e durou milhares de séculos, não sendo uma opulência que durasse apenas 50 ou 100 anos, como muitos dos impérios de que tivemos notícias. Sua base era espiritual, baseada nos ensinamentos de Krishna, dessa forma a opulência material vem com o bem estar espiritual, pois uma pessoa, quando é bem resolvida espiritualmente, produz materialmente, ou em outras palavras, um bem estar interno faz com que uma pessoa produza externamente, e o Swami de-nos como exemplo uma pessoa depressiva, que por ser doente não consegue fazer nada, muito menos trabalhar, e isto é um fato.
Quantas pessoas ricas perderam tudo ou cometeram suicídio porque ficaram depressivas? Então devemos saber que, quando uma pessoa pratica uma espiritualidade saudável, materialmente ela produzirá, e muito, sendo este o segredo da opulência da civilização védica.
Maharaj disse ainda que Esse negócio de ficar pregando pobreza não existe! A renúncia é pessoal, não se impõe isso à pessoa, sendo que também não é um conceito védico.

Uma outra questão foi abordada por um prabhu que disse: "Me disseram que a Consciência de Krishna é monoteísta, mas não seria ela politeísta e hierárquica?"

O palestrante então nos explicou que chama-se de hinduísmo um conjunto de diversos deuses, adoradores e etc; portanto quando se fala em grandes religiões, o hinduísmo está incluso, mas por falta de conhecimento dos teólogos, pesquisadores e historiadores, porque na verdade dentro do hinduísmo existe a corrente monoteísta que é o vaishnavismo. Explicou que propaga-se tanto que o movimento é monoteísta porque eles consideram a existência dos devas como mitológica, pois eles não acreditam em semideuses. Então este é um problema muito sério.

Dando continuidade a sua explicação, Sua Santidade disse que a igreja recuperou a adoração dos devas com as festas de solstício por exemplo, que é uma festa da vitória da luz sobre as trevas, que ocorre no final de dezembro, em que o dia passa a ser mais longo do que a noite. Então na Europa havia muitas festas glorificando este fato, glórias que eram aos semideuses. O Swami nos disse também que várias culturas adoravam os semideuses, como a céltica, romana, grega, nórdica e várias outras, e para estabelecer fortemente a adoração ao Deus único, categorizou-se os semideuses como seres mitológicos, o que foi um grande erro.

Já o vaishnavismo, prosseguiu Maharaj, reconhece a existência de todos os semideuses, porém eles não são adorados, pois adora-se unicamente a Krishna, e como Ele próprio diz no Bhagavad Gita: "Aqueles que adoram os semideuses são pessoas com menos inteligência, pois os adoram buscando opulência material", e Krishna ressalva que a shakti dos semideuses, o poder que eles tem de prover a riqueza material, vem dEle, sendo que os semideuses possuem este poder porque eles adoram Krishna.

Maharaj nos deu como exemplo o Senhor Siva, que adora a sua deidade de Ananta Sesa, uma expansão de Balarama , e que Lakshmi é devota de Narayana, então Krishna diz que, ao invés de adorar os semideuses, adore-O, pois Ele pode proporcionar a riqueza que queremos e ainda nos dar a liberação.

Dessa forma, o vaishnavismo é monoteísta, assim como o movimento Hare Krishna, porém, reconhecendo a existência dos semideuses e respeitando-os, porque eles são devotos e, quando uma pessoa canta Hare Krishna, eles consideram-na como parte deles. Então um ser humano que canta Hare Krishna é considerado como parte dos semideuses, uma posição muito elevada materialmente, e é assim que os semideuses encaram os vaishnavas. Logo, esta é a diferença entre o vaishnavismo e as religiões ditas monoteístas.

A corrente hinduísta do monoteísmo que prega fortemente a adoração ao Deus único, Krishna, disse Maharaj Param Gati, é composta pelas 4 Sampradayas vaishnavas, que são: Brahma-Sampradaya, Rudra-Sampradaya, Shri-Sampradaya e Kumara-Sampradaya, que estão em total harmonia, não adorando os semideuses, mas reconhecendo a identidade e a existência deles, pois considerá-los seres mitológicos é ofensivo. Dessa forma, a imagem que o ocidente tem do hinduísmo é totalmente distorcida, sendo a de um aglomerado de devas, inclusive Krishna, como um "deus hindú", com letra minúscula.

Um nono comentário foi feito por um prabhu, que disse ter lido sobre algum sábio que afirmava existir um Deus Absoluto que é diferente do Deus criador.

E Maharaj contou-nos que na Índia, os indianos dizem que Krishna não criou o mundo, mas sim o criador do mundo, pois Ele tinha coisas mais importantes para fazer, causando o riso dos presentes.

Uma última pergunta foi feita: "Vaishnavismo pode ser classificado como uma religião ou como uma cultura espiritual que possui a religião?"

Prontamente Sua Santidade respondeu, dizendo que vaishnavismo é uma cultura espiritual onde as características religiosas estão presentes, sendo isto explicado por Krishna: "Este processo é o rei da educação, o rei do conhecimento, e porque ele dá a direta percepção do eu, ele é então a perfeição da religião". Krishna mostra a meta última a ser alcançada como religião e não somente uma coisa ritualística, explica Maharaj, de ir a algum local, orar e depois continuar o dia a dia. Não é assim, pois a auto realização é muito mais do que isso. Dessa forma podemos classificar o vaishnavismo como uma prática espiritual em que os aspectos religiosos estão incluídos.

Sua Santidade disse que na França, atualmente, algo recente é a tendência geral das pessoas buscarem a espiritualidade, que é exatamente o Movimento de Sankirtana, que foi o movimento percursor em muitos aspectos, quebrando paradigmas, mostrando que a mensagem espiritual está muito além de dogmas, algo considerado muito intressante por Maharaj Param Gati.

Srila Prabhupada Ki! Jay!


Texto: Bhakta Daniel
 

 
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