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Bhagavad-Gita, Capítulo 18, verso 46
dosair etaih
kula-ghnanam
varna-sankara-karakaih
utsadyante jati-dharmah
kula-dharmas ca sasvatah
Tradução: Pelas ações más daqueles que destroem a
tradição familiar, e acabam dando origem a crianças
indesejadas, todas as espécies de projetos comunitários
e atividades para o bem-estarda família entram em
colápso.
Significado: "Os projetos comunitáriospara as
quatro ordens da sociedade humana, combinados com as
atividadespara o bem-estar da família, conforme
estabelecido pela instituiçãodo sanatana-dharma, ou
varnasrama-dharma, são planejadospara capacitar o ser
humano a alcançar sua salvação última. Portanto a
ruptura da tradiçãosanatana-dharma por líderes
irresponsáveis da sociedade, produz caus na sociedade, e
como conseqüência as pessoas esquecem a meta da vida-
Visnu. Taislíderes são chamadosde cegose as pessoas que
seguemestes líderescom certeza serão conduzidas ao caos."
No
último domingo de Setembro, tivemos uma dinâmica aula no
Festival de Domingo ministrada por Prema Rupa Das,
discípulo de Sua Santidade Purushatraya Swami. E o verso
escolhido foi o 1-42, mas a aula abrangeu o primeiro
capítulo como um todo, e deu uma visão do conceito de
dharma de acordo com as várias maneiras como ele é
exposto ao longo de toda a Bhagavad Gita.

O
palestrante começou explicando que a Bhagavad Gita faz
parte do Mahabharata, um épico que conta a história de
uma dinastia. Este trecho do épico trata do momento
imediatamente anterior ao início de uma guerra ocorrida
entre duas partes de uma família, os filhos de dois
irmãos. Antes da batalha começar, o guerreiro Arjuna, um
dos líderes de uma das facções, pede a Krsna, que está
conduzindo sua quadriga, que o leve até onde ele possa
ver os dois exércitos. Nesse momento, Arjuna entra em
conflito, pois vê no campo inimigo parentes e amigos, e
declara então que não vai conseguir lutar, justificando-se,
situação que culmina neste verso.
Uma das
interpretações da palavra dharma remete a
religião, respeito, leis, e deveres, e à ordem da
natureza, dentro da qual há o dever específico de cada
pessoa. No caso em estudo, o dever de Arjuna é de
guerreiro (Ksatrya), cujo conflito ocorre entre seu
dharma no sentido de tradição familiar, e seu
dharma no sentido de dever enquanto guerreiro. Ou
seja, ou ele luta contra a tradição, ou desiste de seu
dever de guerreiro.
Arjuna
argumenta dizendo que não vê bem que possa decorrer da
morte de seus parentes, que se eles matarem seus
parentes o pecado os dominará e que, embora seus primos
estejam errados, isso não justificaria o seu erro, pois,
com a destruição da dinastia, a tradição eterna (dharma)
da família será destruída, a sociedade ficará sem
referência e o restante da família se envolverá em
irreligião, o que culminará com a degradação das
mulheres e o desenvolvimento de progênie indesejada,
causando vida infernal para a família e os destruidores
das tradições e prejudicando os antepassados. Ou seja,
retirando a referência da sociedade, a mesma rompe com
seu passado, e a instituição familiar fica prejudicada.
Arjuna apresenta, então, argumentos consistentes não
egoístas; ele se encontra em um impasse, e não com medo.

Krsna,
então, responde a Arjuna como se não o tivesse entendido,
ou como se o estivesse testando, questionando como essas
impurezas haviam se desenvolvido nele, dizendo que tal
postura afetaria sua fama e aconselhando-o a abandonar
essa fraqueza de coração. Quando Arjuna responde dizendo
que não pode lutar contra homens como seu avô e seu
guru, que são dignos de sua adoração, e que prefere
viver mendigando a viver à custa da vida dessas pessoas,
Krsna novamente o incentiva a lutar, e tenta dar-lhe uma
nova visão da situação. Nesse momento Arjuna assume que
está confuso e pede a ajuda de Krsna, que sorri e diz
que o sábio não se lamenta nem pelos vivos nem pelos
mortos. Passa, então, aproximadamente 50 versos
dizendo-lhe porque deve lutar.
Inicialmente Krsna fala de dharma para com a
ordem do mundo, e explica que a alma não morre, o ponto
mais importante de sua argumentação, e que é tolice
pensar que se vai matar alguém, porque a alma não pode
ser morta. Explica também que lutar é o dever específico
de um guerreiro, e que se Arjuna não lutar, vai incorrer
em erro e ir contra seu dharma. Explica que a
ação executada por dever não gera reação, e que essa é a
maneira de executar seu dharma sem romper o
dharma da família; a tradição familiar é importante,
mas menos do que as coisas como devem ser feitas. Essa
hierarquia entre os deveres é importante pois, em nossa
vida, chegamos freqüentemente a impasses como esse, para
os quais precisamos de respostas que nem sempre são
fáceis, e devemos saber diferenciar o que é necessário
do que é circunstancial. Arjuna estava mais preocupado
com o dharma enquanto tradição familiar, mas
Krsna lhe explica que deve cumprir sua função, pois isso
é que dá suporte à sociedade.
Hoje em
dia vemos culturas muito diferentes fazendo coisas muito
diferentes. As guerras são choques de culturas, de
mundos diferentes, e dentro dessa diversidade, qual será
o critério para definir o que é certo do que é errado?
Como podemos discernir isso? Nesse momento temos que ter
em mente que dharma não é só atitude, mas também
intenção. É fazer o bem e querer fazer o bem.
Por fim,
o palestrante disse que no final da Bhagavad Gita, Krsna
diz a Arjuna que abandone o dharma e simplesmente
renda-se a Ele, e explicou que quando não se faz alguma
coisa por negligência acumula-se karma assim
mesmo, da mesma maneira que se pode não acumular
karma agindo. Prema Rupa Das explicou também que a
melhor forma de encontrar a solução para problemas
culturais é tentar encontrar algo que sirva de
fundamento, algo que possa ser tomado como lei
universal, ou seja, dharma.
Texto: Ananda-maya Devi Dasi
Fotos: Madhumati Radhika Devi Dasi
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